Fim do prazo para propostas dos novos comboios de alta velocidade da Renfe: Será o ETR 1000 o favorito?

Terminou o concurso para 30 comboios de alta velocidade da Renfe, com opção para mais 10. O ETR 1000 da Hitachi surge como principal candidato; analisamos os factores que sustentam essa posição.

Fim do prazo para propostas dos novos comboios de alta velocidade da Renfe: Será o ETR 1000 o favorito?
Um comboio da série 109 com a imagem corporativa da Renfe, criado com IA, na estação de Sevilha-Santa Justa. © CRISTINA TOLOSA, editado com o Gemini.

Miguel Bustos | 24-06-2026.

Ontem, 23 de junho, terminou o prazo para os fabricantes de material circulante apresentarem propostas à Renfe para o fornecimento e manutenção de 30 comboios de alta velocidade, com opção para mais 10 unidades. O prazo havia sido previamente alargado a pedido dos concorrentes.

A Renfe ainda não divulgou quais empresas participaram nem quais plataformas foram propostas. Ainda assim, existe um consenso generalizado de que o ETR 1000 da Hitachi é o principal favorito, havendo mesmo fontes que sugerem um caderno de encargos alinhado com as suas características.

Requisitos técnicos exigentes

Tal como já reportado, os requisitos do concurso são confidenciais e foram entregues diretamente aos fabricantes sob acordos de confidencialidade. A Renfe justifica esta abordagem com o contexto concorrencial em Espanha e França, onde os comboios poderão operar.

Os requisitos confirmados incluem:

  • Velocidade comercial máxima de 350 km/h.
  • Entrega dos primeiros comboios totalmente homologados no prazo de 40 meses após adjudicação, seguida de uma cadência de produção de um comboio a cada mês e meio até ao mês 78.

Estas condições implicam a necessidade de plataformas já em produção e pelo menos parcialmente homologadas na União Europeia, além de concebidas para operação a 350 km/h.

Atualmente, apenas três plataformas cumprem estes critérios: o ETR 1000 da Hitachi, o Avelia Horizon da Alstom e o Velaro neo da Siemens. Nenhum está homologado acima de 320 km/h, embora todos tenham sido concebidos para 350 km/h em serviço comercial. A CAF e a Talgo não dispõem, de momento, de comboios concebidos para estas velocidades nem com produção ativa.

Um requisito técnico que poderá ter sido incluído é a tração distribuída. A confirmar-se, excluiria o Avelia Horizon, deixando a Alstom com o Avelia Stream, baseado na combinação das plataformas Zefiro e Pendolino.

No entanto, nenhuma destas plataformas está atualmente em produção, o que poderá dificultar o cumprimento dos prazos exigentes.

Importa referir que o ETR 1000 é tecnicamente designado V300 Zefiro, refletindo o seu desenvolvimento conjunto pela Bombardier (agora parte da Alstom) e pela Ansaldobreda (agora parte da Hitachi).

Homologação: o principal constrangimento

A indústria ferroviária europeia enfrenta atrasos significativos, em parte atribuídos à complexidade crescente dos processos de homologação e à limitada disponibilidade de infraestrutura para ensaios.

Assim, a homologação prévia torna-se determinante. Tanto o ETR 1000 como o Avelia Horizon cumprem este requisito, sendo que o primeiro já está homologado em Espanha, embora na sua versão inicial.

A Hitachi deverá propor a segunda geração do ETR 1000, com sistemas próprios, maior eficiência energética e melhorias de conceção, incluindo maior capacidade para bagagem.

Esta versão já está homologada em Itália e, sendo uma evolução, beneficiou de um processo mais célere. A homologação em Espanha e França deverá, por isso, ser relativamente ágil, estando também em curso noutros países como a Áustria.

Outros possíveis concorrentes

A Siemens é o único fabricante que indicou publicamente a sua intenção de concorrer, possivelmente com o Velaro Novo. Contudo, esta plataforma encontra-se ainda em fase de desenvolvimento, com apenas um veículo em testes, o que torna improvável cumprir os prazos.

Uma alternativa mais viável seria o Velaro neo, com características semelhantes ao ETR 1000, mas ainda sem homologação em Espanha.

A Alstom poderá manter competitividade com o Avelia Horizon, caso o requisito de tração distribuída não se confirme. Este modelo oferece elevada capacidade sem recorrer a configurações densas ou soluções que comprometam o conforto.

Tanto o Ministério dos Transportes como a Renfe também exploraram contactos com a CRRC. Apesar da elevada capacidade industrial, a necessidade de homologação integral constitui um desafio significativo face ao calendário exigente.

A Renfe irá avaliar as propostas técnicas durante o verão e abrir as propostas económicas, com peso de 30%, a 9 de setembro. A adjudicação deverá ocorrer antes do final do ano, iniciando-se então o prazo de 40 meses, caso não haja contestações.

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