Os problemas com a série 106 da Renfe – os comboios Avril fabricados pela Talgo – continuam a agravar-se. O operador retirou de circulação mais dois comboios após detetar novas fissuras nos bogies durante a última semana de agosto. Trata-se de duas unidades de bitola fixa que circulam no corredor Madrid–Levante.
A deteção ocorreu no âmbito do programa de inspeção reforçada que o operador mantém sobre esta série desde julho de 2025, quando surgiram as primeiras fissuras nos bastidores dos bogies de cinco unidades de bitola fixa em serviço Avlo entre Madrid e Barcelona. Na altura, o fabricante apontava o mau estado da infraestrutura como desencadeador do problema.
A companhia sublinhou que manterá fora de serviço qualquer composição sobre a qual exista dúvida quanto ao estado destes componentes, só autorizando a sua exploração após superar os controlos técnicos estabelecidos. Segundo a Renfe, as técnicas de acompanhamento permitem identificar indícios em fase precoce e adotar medidas preventivas antes que possam afetar o comportamento do material em circulação.
Infraestrutura descartada como causa principal no corredor Madrid–Barcelona
Desde a deteção das fissuras em alguns dos cinco comboios de bitola fixa da série 106 que cobriam o Avlo Madrid–Barcelona, esta série não prestou serviço no troço Madrid–Calatayud – o mais afetado. Um relatório da Tarvia apontava o estado da infraestrutura como origem das fissuras, dado que era onde se detetavam mais vibrações.
Contudo, a Adif defendeu que a linha reunia as condições necessárias para circulação a 300 km/h e os dois comboios retirados no final de agosto não circularam por este corredor. Este facto permite descartar o estado dessa infraestrutura como causa principal dos danos, apontando, pelo menos de momento, para um defeito de fabrico que não afeta os bogies de bitola variável.
A Renfe solicitou ao fabricante que aprofunde a análise das causas, determine o alcance do problema e adote as medidas técnicas necessárias para garantir a fiabilidade dos bogies atualmente em serviço.
A Talgo continua a investigar a origem dos defeitos, depois de ter realizado campanhas adicionais de ensaios mediante provas de extensometria em diversas linhas de alta velocidade, com primeiros resultados positivos, e com ensaios em banco pendentes para completar a validação. Não obstante, a variante de bitola fixa está próxima de desaparecer.
Conversão de toda a série 106 para bogies de bitola variável
A retirada destes dois comboios ocorre dois meses após a Renfe e a Talgo terem acordado a transformação dos 15 comboios Avril de bitola fixa em composições de bitola variável. Uma operação avaliada em 132 milhões de euros que visa homogeneizar a série a nível técnico, com o objetivo de prestar serviço em Portugal. Além disso, acordou-se aumentar o custo da manutenção apesar da simplificação da frota.
A transformação será executada em 37 meses, estando previsto que as primeiras unidades modificadas estejam prontas a partir do décimo quinto mês. Assim, os 30 comboios ficarão divididos em 20 com interior para serviços AVE (duas classes e bar) e 10 para serviços Avlo (classe única e sem bar).
A Talgo deverá garantir o correto funcionamento dos novos bogies durante a exploração prevista, realizando a seu cargo as melhorias que possam resultar necessárias nos bastidores. Estas garantias estendem-se também aos comboios da série S107, que utilizam os mesmos bogies.
A conversão para bogies de bitola variável dotará a frota S106 de maior versatilidade, permitindo circular tanto por linhas de bitola internacional como por outras de bitola ibérica, incluindo as duas de alta velocidade que estão em 1.668 mm. Esta flexibilidade é fundamental para reforçar serviços em corredores como a Galiza, as Astúrias, a Cantábria, Huelva ou Cádis, afetados pela chamada segunda fase da liberalização.
Vigilância reforçada e segurança como prioridade
A Renfe reiterou que manterá uma vigilância reforçada sobre toda a série 106, independentemente das linhas por que tenham circulado, e continuará a retirar preventivamente qualquer material em que as inspeções detetem indícios que requeiram análise adicional. A operadora considera imprescindível que o pessoal de condução e manutenção disponha de todas as garantias necessárias para desenvolver o seu trabalho.
O plano de controlo e acompanhamento, elaborado em consenso com a Agência de Segurança Ferroviária Espanhola, está a demonstrar ser eficaz ao permitir detetar afeções nos bogies antes que se produzam incidentes em serviço e tomar as medidas necessárias.

