A Renfe e a Talgo resolveram definitivamente a situação dos comboios da Série 106, da plataforma Talgo Avril, com um acordo que altera o conceito original da série. O operador público decidiu reconverter as 15 composições inicialmente concebidas para bitola fixa em unidades de bitola variável, de modo que toda a frota partilhe a mesma tecnologia de rodados de bitola variável, que não apresentou os problemas de fissuração observados nos comboios de bitola fixa.
O investimento ascende a 132 milhões de euros.
Uma mudança estratégica que reforça a competitividade da Renfe
Com esta alteração, todos os Avril poderão circular indistintamente em linhas de bitola internacional e de bitola ibérica a uma velocidade máxima de 300 km/h; com homologação, o limite poderá subir para 330 km/h. Tal é relevante para a fluidez em corredores a evoluir para 350 km/h, onde os Avril e a Série 107 poderão substituir as séries 120, 130 e 730, cujo limite de 250 km/h condiciona o restante tráfego.
Além disso, dispor de 15 composições de alta velocidade com bitola variável e 300 km/h reforça a capacidade da Renfe para a segunda fase da liberalização, dado que as suas rotas combinam ambas as bitolas. No total, o operador contará com 43 comboios de muito alta velocidade aptos a circular nas duas redes.
Embora a alteração não impeça a circulação em França, constitui um sinal claro de que a Renfe descarta utilizar a Série 106 no país. A sua substituição será, previsivelmente, assegurada pelos comboios lançados a concurso nesta primavera.
A conversão das 15 composições de bitola fixa da Série 106 para bitola variável irá uniformizar a série, que ficará dividida em 20 composições de bitola variável para serviços AVE e 10 unidades de alta densidade (apenas lugares 3+2 e sem cafetaria) para serviços Avlo.
A Renfe previa substituir os assentos de classe Confort, mas tal ainda não se concretizou e o contrato com a Talgo não parece contemplar essa melhoria.
Compensação da multa de 116 milhões de euros?
Do ponto de vista financeiro, algumas vozes entendem que este acordo anula, de facto, a penalização de 116 milhões de euros imposta pela Renfe à Talgo pelo atraso na entrega da Série 106, uma vez que fica 16 milhões abaixo do custo da conversão; contudo, tal dependerá do custo final da substituição dos bogies e dos rodados.
Os trabalhos de conversão prolongar-se-ão por pouco mais de três anos. A Talgo será responsável pela modificação integral, com as primeiras entregas previstas a partir do mês 15, permitindo uma entrada faseada em serviço comercial.
O fabricante assumirá ainda compromissos de longo prazo quanto ao comportamento dos bogies de bitola variável, incluindo eventuais intervenções nos quadros se necessário. Estas garantias alinham-se com desenvolvimentos futuros, como a Série 107, que utiliza os mesmos bogies e rodados.
