A Deutsche Bahn iniciou o processo de venda da DB Cargo UK, a sua filial britânica de transporte ferroviário de mercadorias, com sede em Doncaster, Inglaterra. A decisão resulta de uma reavaliação estratégica do grupo alemão, que está a dar prioridade às suas operações na Europa Central após a aprovação de apoios estatais pela Comissão Europeia em 2024.
Estratégia empresarial e contexto regulamentar
O director-geral da DB Cargo UK, Andrea Rossi, confirmou aos 2 155 trabalhadores da empresa, a 17 de Agosto, que o conselho de administração britânico nomeou assessores jurídicos e financeiros para conduzir um processo estruturado de venda. Segundo Rossi, a DB Cargo AG comunicou que o seu foco estratégico irá centrar-se cada vez mais “nas suas operações na Europa Central, que estão a ser alvo de uma reestruturação significativa na sequência da decisão da Comissão Europeia sobre os auxílios estatais”.
A decisão, emitida em 2024, autorizou 1,9 mil milhões de euros de apoio do Governo alemão à DB Cargo, sujeito a medidas de reestruturação e à alienação de determinados activos e participações. A empresa deverá ser rentável até 2026 e não poderá receber subsídios cruzados da sua empresa-mãe. Neste contexto, o grupo alemão procura um novo proprietário para o operador britânico que possa disponibilizar “capital adicional, oportunidades de mercado mais amplas e a escala necessária para a próxima fase de desenvolvimento da actividade”.
Operações e activos envolvidos
A DB Cargo UK, criada em 1995 como English, Welsh & Scottish Railway (EWS) e adquirida pela Deutsche Bahn em 2007, é um dos maiores operadores de transporte ferroviário de mercadorias do Reino Unido. A empresa emprega 2 200 pessoas, opera uma frota de 228 locomotivas diesel e eléctricas e presta serviços de transporte de mercadorias, infra-estruturas e comboios de passageiros fretados no Reino Unido, além de assegurar ligações ferroviárias de mercadorias com o continente através do Túnel da Mancha.
Rossi reconheceu que, apesar das melhorias no desempenho operacional e na eficiência financeira obtidas através do programa de transformação da empresa, “os benefícios dessas melhorias foram compensados por factores externos, em grande medida fora do nosso controlo”. Estes factores aumentaram uma base de custos já complexa, afectaram mercados fundamentais e reduziram os volumes e as receitas. Ainda assim, sublinhou que a actividade mantém “uma quota de mercado significativa, uma base de clientes diversificada, uma base de activos substancial e um vasto portefólio imobiliário”.
Processo de venda e assessores
Segundo a Sky News, a DB Cargo UK está a trabalhar com a empresa de assessoria Interpath numa operação de venda por leilão e já manteve conversações com potenciais interessados. A Deutsche Bahn, contudo, esclareceu que as negociações se encontram numa fase “muito inicial e não vinculativa”. A empresa garantiu que, durante o processo, as operações continuarão numa base de “business as usual”, com os serviços a decorrerem normalmente.
Reacção sindical: a ASLEF pede protecção do emprego e um maior papel público
O sindicato dos maquinistas ASLEF reagiu com cautela ao anúncio. O seu secretário-geral, Dave Calfe, afirmou que “os maquinistas da DB Cargo têm trabalhado arduamente para a empresa, dia após dia, ao longo de anos de incerteza” e exigiu que “os seus postos de trabalho sejam protegidos em qualquer venda”.
Calfe criticou o facto de “as empresas privadas andarem a atropelar-se umas às outras em vez de fazerem crescer o transporte ferroviário de mercadorias” e pediu ao Governo britânico que “expanda o transporte ferroviário de mercadorias de propriedade pública”.
No seu documento de política Rail Freight Future, a ASLEF defende o investimento em infra-estruturas para criar capacidade de transporte de mercadorias, a conclusão da HS2, a concretização da aguardada modernização do entroncamento de Ely e o avanço de um programa contínuo de electrificação. O sindicato pretende também “nivelar o campo de jogo entre a estrada e a ferrovia”, através da revisão da tributação dos combustíveis rodoviários e das taxas de acesso à via.
Cenários possíveis: uma ‘UK Cargo’ pública?
Circulam especulações sobre potenciais compradores, incluindo companhias marítimas internacionais com interesses no sector logístico. A ASLEF, contudo, considera que existe uma “oportunidade de ouro para pôr fim à corrida para o fundo” caso o Estado assuma um papel mais directo.
O sindicato argumenta que 90% dos benefícios económicos do transporte ferroviário de mercadorias são gerados fora de Londres e do Sudeste. Defende que “os caminhos-de-ferro deveriam ser totalmente nacionalizados”, considerando um operador público de transporte ferroviário de mercadorias como um passo nesse sentido.

