O sindicato ferroviário EVG advertiu que a entrada prevista da operadora privada italiana Italo no mercado de longa distância alemão a partir de 2028 poderá enfraquecer significativamente os serviços ICE e IC em pelo menos 16 cidades fora dos principais corredores.
Subsídios cruzados em risco
A principal preocupação é que a Deutsche Bahn, que detém cerca de 95% do mercado de longa distância com ICE e IC, possa perder receitas nas suas rotas mais rentáveis. Atualmente, a DB financia destinos deficitários através de subsídios cruzados provenientes das linhas troncais.
Se concorrentes como a Italo captarem os canais horários mais lucrativos nos corredores Munique–Frankfurt–Colónia–Dortmund e Munique–Berlim–Hamburgo, este mecanismo ficará comprometido.
Segundo a EVG, trata-se de um problema estrutural não devidamente resolvido pela liberalização europeia. Em Espanha, onde a Renfe também utiliza subsídios cruzados, observaram-se a supressão de comboios noturnos e aumentos tarifários em alguns eixos.
De acordo com análise da EVG citada pela Der Spiegel, as cidades potencialmente afetadas incluem Aachen, Augsburg, Bamberg, Chemnitz, Cottbus, Freiburg, Ingolstadt, Jena, Magdeburgo, Münster, Norddeich Mole, Osnabrück, Rostock, Saarbrücken, Schwerin e Singen. Em Trier, uma ligação IC prevista poderá ser cancelada antes da sua entrada em serviço.
Condições de acesso ao mercado
O presidente da EVG, Martin Burkert, defende “soluções integradas” na atribuição de canais horários: qualquer novo operador que pretenda aceder às linhas mais rentáveis deverá também servir cidades e regiões de menor dimensão.
“Se a Italo puder escolher apenas os melhores canais e afastar a DB das rotas principais, o nosso sistema de longa distância será desmantelado”, afirmou. Em Espanha, os pacotes de canais foram concebidos precisamente para evitar a concentração exclusiva no eixo Madrid–Barcelona.
O CEO da Italo, Gianbattista La Rocca, sublinha a necessidade de regras claras e segurança no planeamento a longo prazo, advertindo que a ausência de decisão atempada poderá fazer a Alemanha perder a oportunidade de introduzir mais concorrência. A Italo pretende iniciar operações com 30 composições e não respondeu detalhadamente ao alerta mais recente da EVG.
A Deutsche Bahn sustenta igualmente que a concorrência não deve implicar perda de conectividade na rede. A CEO de longa distância, Evelyn Palla, pede melhores enquadramentos políticos para evitar uma concorrência descontrolada com impactos negativos para os passageiros. A EVG alerta ainda que a expansão de operadores como a Flixtrain poderá gerar uma pressão competitiva tripla na rede.
